Foto: Muriel Brousseau
Estou lendo um livro de Jeff Hammond sobre a carreira dele primeiro como trocador de pneus, depois como chefe de mecânicos, co-fundador de equipe e finalmente como comentarista da NASCAR para a Fox. Ainda não cheguei à metade, mas o que mais me chamou a atenção até agora foram as referências que ele faz a Darrel Waltrip, três vezes campeão e agora também comentarista da rede norte-americana.
Segundo Hammond, que como mecânico foi tri-campeão com Cale Yarborough na segunda metade dos anos 70, ele e o resto da equipe de Junior Johnson odiavam Waltrip. Mais do que ganhar campeonatos, o que dava prazer a eles era derrotar o piloto nas pistas. E porque o ódio? Darrel Waltrip era um falastrão (o que ainda é hoje), não media as palavras na hora de criticar e simplesmente se achava o melhor, o resto era o resto. Características que, embora não exatamente iguais, lembram o Buschinho.
No final de 1980, quando Cale Yarborough deixou a equipe, o legendário Junior Johnson contratou o “inimigo” e Jeff Hammond e os outros mecânicos não tiveram opção a não ser engolir o sapo. A coisa ficou tão feia no primeiro ano, que Johnson criou o cargo de chefe do carro (hoje adotado por todas as equipes) para que Hammond passasse a trabalhar na sede da equipe, sem ter que comparecer às pistas. Mas, como no fim das contas todo mundo é profissional, o resultado foi um bi-campeonato nos dois primeiros anos da parceria, em 81, 82, e depois um terceiro em 85. Em 82 e 85, Jeff Hammond foi também o chefe de mecânicos campeão.
Agora, o Buschinho... Estava dando uma olhada nos números dele e com quase cinco temporadas completas, ele tem 15 vitórias, o que é um número impressionante. Além disso, já provou que sabe andar na frente e encara o que vier. Darrel Waltrip só foi campeão em sua sétima temporada e nas seis anteriores acumulou 27 vitórias e um segundo no campeonato. São números mais impressionantes que o do Buschinho, mas que não invalidam o ponto onde quero chegar: apesar do sucesso, das vitórias e da verborragia, o campeonato de Waltrip demorou para aparecer.
Não, eu não sou fã do Buschinho e confesso que no fundo tenho um pequeno prazer quando ele fica para trás (eu sei, eu detono o fariseu quando ele faz o mesmo com o Jeff Gordon). Mas isso não me impede de achar que KB é um dos maiores talentos da atualidade e que eventualmente vai ganhar campeonatos. Tudo o que falta é ele amadurecer, o que foi exatamente o que aconteceu com o Darrel Waltrip e com tantos pilotos. Não vamos nos esquecer que Jimmie Johnson só se tornou campeão depois que Rick Hendrick o trancou com Chad Knaus numa sala e mandou os dois se entenderem.
Kyle Busch tem apenas 24 anos. Com essa mesma idade, o atual tri-campeão nunca havia competido num carro da Sprint Cup. É verdade que os pilotos começam mais cedo atualmente, mas isso não quer dizer que o talento seja acompanhado pelo amadurecimento. O Buschinho é um piloto inteligente,e aos poucos está aprendendo que talento e instinto, apesar de fundamentais, não são completos sem o uso da cabeça. Ele não é o melhor piloto de todos os tempos, nem amarelão, mas simplesmente está passando por altos e baixos, normais de qualquer crescimento. A hora do Buschinho vai chegar, podem ter certeza. Muito possivelmente isto não vai acontecer este ano, mas é inevitável.